Vitorino Nemésio

Homem de letras dos mais fecundos e originais, domina, com uma vasta obra de criação e de investigação, o campo da cultura o da literatura portuguesa do século xx. Nos Açores, onde nasceu, fará estudos primários e secundários, colaborando Logo em 1915 no Eco Académico, onde trava conhecimento com Jaime Brasil, seu.  mentor de iniciação literária e agnóstica» . Nesses anos, dirige Estrela de Alva, revista literária, e publica o seu primeiro livro, Canto Matinal, poesia, 1916.
De mistura com alguma boémia, não é um aluno brilhante no liceu e, tendo-se incorporado no Exército como voluntário, é nessa qualidade e, em Janeiro de 1919, visita pela primeira vez o Continente. Em Lisboa, no início dos anos 20, trabalha como repórter em A Pátria, privando com jornalistas como Norberto Lopes e Artur Portela e com dirigentes anarco-sindicalistas da CGT. Por essa altura participa na fundação do jornal Última Hora. Em 1920, após publicar uma peça de teatro, Amor Nunca Mais, regressa aos Açores decidido a concluir o curso dos liceus. Em Julho de 1992, de novo no Continente, apresenta-se em Coimbra aos exames do então 7.º ano, matriculando-se de seguida na Faculdade de Direito. Emprega-se como revisor da Imprensa da Universidade, colabora com o Século e publica um novo livro de poesia, Nave Etérea (1922). No ano seguinte, em que lhe morre o pai, é iniciado na Maçonaria, na loja Revolta de Coimbra. com o nomo simbólico de Manuel Bernardos. Dirige então os jornais republicanos Gente Nova e A Humanidade,  este último fundado em 1912 por um grupo de lojas maçónicas, uma das quais a sua. Integra-se no Orfeão Académico de Coimbra, com o qual  viaja por Espanha, oportunidade para conhecer Ortega e Gasset. Nas férias de 1924, tem Raul Brandão como companheiro na viagem  para os para os Açores. Nesse mesmo ano, funda a revista Tríptico com Afonso Duarte, António de Sousa, Branquinho da  Fonseca, Campos de  Figueiredo e João Gaspar Simões.

Casa em 1926 e, tendo entretanto passado para a Faculdade de Letras, licencia-se em 1931 em Filologia Românica.   Depois de  reger a  cadeira  de Literatura  Italiana  na  Universidade de Coimbra, como contratado, doutora-se ali em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Após o doutoramento,   vai   para   França,   como   leitor  de português na Universidade de Montpellier, e é então que tem oportunidade de conviver com intelectuais como o filólogo alemão KarI Vossler, Marcel Bataillon. Robert Ricard, Pierre Hourcade. Durante esta estada em Montpellier publica o livro de poemas La Voyelle Promise (1935)  e profere algumas conferências, mais tarde reunidas no volume Études Portugaises (1938). De regresso a Coimbra, funda com Alberto Serpa, em Outubro de 1937,  a Revista de Portugal, «saída como tácita reacção ao proselitismo da Presença» (em 1930), Nemésio  havia  ali  publicado  alguns  sonetos, mas manteve-se sempre alheio aquele movimento). Entre 1937 e 1939, lecciona na Universidade de Bruxelas e em 1940, torna-se professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de que chegaria a  ser director, pronunciando ali a sua última lição em 1971. Entretanto, havia viajado a leccionar pelo Brasil, Espanha, França, Inglaterra. Alemanha, Holanda. Suiça a as então ainda colónias  portuguesas de Angola e Moçambique.      Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier (França) e do Ceará (Brasil), recebeu em 1966 o Prémio Nacional da Literatura e, em 197 4 , o Prémio Internacional Montaigne. Em 1963,  torna-se sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.

Seduzida  pelo  rosto da Esfinge,  toda  a  obra de Vitorino  Nemésio (seja a de ficcionista e poeta, seja  a de crítico, biógrafo ou historiador, ensaísta ou filólogo) se sujeita aos desafios do Ministério. Tenha-se em conta o entusiasmo com que o autor se lança no estudo de matérias como a microfísica e a biologia molecular, já para o fim da vida, revelador de um espírito em permanente vigília (ver : o livro de poemas Limites de Idade, (1972). Escolhe a via da dispersividade para com ele se defrontar (arma com que alguns o atacarão) mas que ele assume como método, não só por mais adequado ao seu espírito dialéctico, avesso a redutoras certezas, como o que melhor serve aos seus objectivos. Na linha do pensamento contemporâneo, sabe que a Mistério é em si insondável e plural e que só, há uma maneira de o  falar, de o dizer; evocando, aludindo, metaforizando, numa palavra, exercitando um tipo de pensamento analógico. Por isso,  a linguagem é,  na sua obra, a dimensão de que nenhum exegeta seu pode alhear-se. Vitorino Nemésio domina o verbo com segurança, espontaneidade e. por vezes, ousadia inexcedíveis, mas para fazer dele o centro de uma Obra.   Aliás, é o próprio a confessar: «Sessenta anos de letras fizeram de mim uma espécie  corrente contínua da fala: «penso em acto» e, ainda, «desfaço-me em linguagem » Como poeta, o seu talento daria, na opinião de David Mourão-Ferreira,    para   mais  dois   ou   três «apontarem  novas direcções e novos modos de ser moderno na poesia portuguesa. «Poeta extraviado» desde os tempos de Coimbra,  isso  significa, em termos de obra  produzida  pelo menos duas coisas    independência relativamente a escolas e doutrinas  (quer dizer, fuga à tradição da nossa poesia, ao pendor narrativo, confessionalista, dramático) e feixe de novas encruzilhadas a apontar outros caminhos: adesão ao símbolo e à imagem (imagismo), às buscas formais (experimentalismo  dos anos sessenta), aos efeitos de surpresa ( non sense e insólito) e de ironia (estética surrealista), retorno às raízes populares (ritmo de romanceiro, quadras e léxico). Em tudo isto, nada de clássico a não ser nas motivações que se adivinham  por debaixo de uma temática centrada na «busca do sentido da existência» (infância, isolamento do eu, procura de Deus, o Destino) , formas de existência diversamente abordadas em alguns dos seus livros (1938-1959), motivações ainda clássicas pelo sentido romântico de uma apetência para o diálogo que delas se desprende.

No panorama do romance português, Mau Tempo no Canal (1944) ocupa um lugar de relevo como romance-tragédia, que trata os conflitos de uma sociedade patriarcal do primeiro quartel do século, integrada na asfixiante realidade insulana. Para além do encontro da realidade física (os Açores) com a psicológica (encarnada em duas famílias rivais que, por razões económicas, se digladiam), o interesse deste romance está também no encontro da dimensão realista da escrita com a simbólica. Mas a sua obra de ficcionista não se fica por este romance, considerado um dos mais importantes da literatura portuguesa do século xx, pois outras obras anteriores e posteriores, haviam afirmado Nemésio como prosador pelo menos tão excepcional como o poeta.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses

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70 ANOS MAU TEMPO NO CANAL VITORINO NEMÉSIO
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Edição: Clube de Filatelia "O Ilhéu" - Horta - Faial
Escola Secundária Manuel de Arriaga
Tiragem: 150 exemplares
Circulação: 15-05-2015
Fonte: Facebook Núcleo Filatélico Angra do Heroísmo   


Livro CTT: "Vitorino Nemésio - Sem Limite de Idade", 2002


Coleção de sócio

Vitorino Nemésio escreveu um livro sobre a Rainha Santa com várias reedições:

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Última atualização: 28/05/2015