é no século XIX que o Traje Académico
vai sofrer maiores alterações.br>
No inÍcio desse século, os atentados ao
Traje eram tão exagerados que o próprio Reitor resolveu impor-se.p>Atingiram os estudantes o ponto de
serem «proibidos de trajarem bigodes e outros atavios impróprios da gravidade
académica, chegando ao excesso de cigarrarem e entrarem cobertos nas gerais e
até nas aulas da Universidade».p>Comparando os textos que se seguem, é
possÍvel verificar que em aproximadamente 100 anos a batina (sucessora da
antiga loba) sobe do artelho (tornozelo) até ao joelho.
Descrição do Traje por Antão de
Vasconcelos, formado em 1865:
| «O vestuário é a capa e
batina; a capa até ao tornozelo, com gola militar; batina curta até ao
joelho, dois dedos abaixo; calção, meia preta de laia, sapato e volta
em vez de gravata, como o padre.br>
No Inverno, no meu tempo, como se
desenvolvesse uma formidável epidemia de bexigas e tifo, era permitido
andar de calça preta, caÍda, em vez de meia preta e calção.br>
Este uniforme, de incomparável
comodidade, dá para uma formatura e sobra, tanto mais que, a capa velha
e rota é respeitada e respeitável; é o emblema do veterano.br>
Anda-se em cabelo, apesar de
fazer parte do uniforme o gorro, saco preto, que posto na cabeça cai
pelas costas. Empregavam-no em carregar livros, frutas e outros mÍsteres.br>
Andar em cabelo e muito bem calçado
era o grande luxo. br>
A capa tem almares para abotoar.
Usa-se de muitas maneiras e, bem traçada, torna-se um trajo muito
elegante. br>
Além de decorativa é um magnÍfico
cobertor.br>
Com a volta usa-se colarinho.»br>
(in Memórias do
Mata-Carochas, Vasconcelos, Henrique António Coelho de; br>
1.ª ed. 1907; 2.ª ed.
ilustrada 1956, Porto)/div>
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Descrição de Trindade Coelho, formado em 1885:p>«O gorro era já raro pelas costas abaixo, ou caindo em cima da orelha. A maior parte andava em cabelo; algum trazia um pequeno boné preto como os de viagem, e as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam ao meio das canelas, mas umas batininhas que só chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado que outra coisa) - e a respeito da meia preta e volta de padre, só nos actos e a volta ās vezes era de papel e as meias de algum teólogo»br>
(in In Illo Tempore; Coelho, Trindade; Publicações Europa-América, Livros de Bolso, n.º 287)
Nos finais do século XIX, as modificações ainda foram maiores. O Traje afasta-se cada vez mais das primitivas loba e baeta e aproxima-se a passos largos daquilo que conhecemos hoje como Traje Académico.br> A principal alteração terá sido a escolha definitiva da calça comprida.br>
Descrição de Ramalho Ortigão,
em 1888:
| «O grave uniforme decompôs-se
pelo modo mais irreverentemente pelintra. O capelo e a volta foram
substituÍdos pelo colarinho postiço e pela gravata do futriquÍssimo
liró. A batina degenerou num casaco gebo e mestiço, de padre ā
paisana. A calça escorreu, inartÍstica e bêsta, pela perna abaixo,
esbaiçando a polainada sobre a odiosa bota de elástico. Assim o belo
costume histórico da antiga Universidade se perverteu sem se reformar,
reduzindo-o a uma aproximação cenográfica de entremez barato ou de
zarzuela pobre.»
(in SubsÍdios
para o Estudo do Trajo dos Estudantes de Coimbra
(Revista Rua Larga, n.º
2); Correia, António; Coimbra, 1 de Julho de 1957)
|
Em meados do século XX, o Traje
adquire já feições muito aproximadas ās de agora.
| «No meu tempo, já esse
uniforme não tinha feição eclesiástica, com excepção da cor. Na
verdade, a capa era um agasalho de feito igual a outros e a batina era
aberta, com bandas de seda, permitindo camisa com colarinhos e gravata
ou camisola, usando-se normalmente desabotoada, com poucos botões, com
bolsos e comprimento um pouco abaixo do joelho, assemelhando-se mais a
uma sobrecasaca do que a uma batina sacerdotal.»
(in Tempos Idos; Castro, LuÍs Cyrne de; Ed. do autor; Braga, 1974) |