Serenata de Coimbra

 

 


Por serenata entende-se, normalmente, um concerto vocal ou instrumental executado de noite, ao ar livre, dirigido, directa ou indirectamente, a uma mulher. Noutra acepção esta palavra pode representar, também, composições musicais ligeiras para concerto, com um ou vários andamentos, a serem executados tanto ao ar livre como em recinto fechado. Estas peças foram muito divulgadas pelos compositores do século XVIII. 

Em qualquer dos casos a mulher assume posição crucial na temática das composições. 
A Serenata de Coimbra enquadra-se nesse espÍrito, se bem que o termo serenata aqui não represente o género da composição que se toca ou canta, mas sim simbolize toda uma manifestação artÍstico-sentimental, ou melhor, todo um acto romântico. Nele o estudante, por meio da sua voz ou da de outrem (nem todos têm o privilégio de cantar bem), acompanhado por instrumentos de corda (hoje limitados à guitarra e à viola), exprime os seus sentimentos à moça eleita. 

Assim se compreende por que o estudante-cantor não diz que vai cantar ou tocar uma serenata, mas sim fazer uma serenata.

Em Coimbra, também se atribuiu, outrora, outro valor ao termo serenata. No século XIX, algumas vezes, foi aplicado como equivalente aos termos tuna e estudantina, com destaque para este último. Neste caso, pretendia representar um grupo de estudantes que, tocando diversos instrumentos, percorria as artérias de uma localidade, para comemorar ou festejar qualquer data ou acontecimento. 

Mas nos últimos decénios desse século, é já notória a preocupação de lhe dar exclusivamente o significado que hoje tem, ou seja, de a considerar como o momento em que alguém expressa os seus sentimentos afectivos a uma mulher, servindo-se do canto e dos instrumentos que fazem o recheio harmónico, isto é, o acompanhamento. Esta manifestação, feita através de pequenas e simples composições musicais, com caracterÍsticas melódicas bastante dolentes, é sempre executada de noite, tendo como tecto a abóbada celeste.



A Serenata, por outro lado, pode ter também por finalidade homenagear personagens ou entidades, ou poderá mesmo nem ser dirigida a ninguém, mas ser simplesmente uma libertação do estudante-cantor em dado momento. 
Contudo, em qualquer dos casos, pressupõe sempre uma manifestação de arte que deve ser tomada como o que de mais belo o estudante de Coimbra tem para ofertar ou o que melhor exprime os seus sentimentos. 

A Serenata é a afirmação de uma certa predisposição que sempre se notou nos estudantes de Coimbra para cantar de noite os poemas que dedicavam à mulher por eles amada. E Coimbra foi sempre pródiga em gerar poetas; não fosse a sua Universidade fundada pelo Rei Trovador! Enfim, tudo se resume na frase que um dia alguém disse: "quando o prÍncipe é poeta, todos fazem trovas." 

A Serenata é hoje considerada como o "ex-libris" do livro de amor que se intitula: Coimbra. 
Os seus cultores, cada vez em maior número, não se limitam ao meio estudantil coimbrão. Por todo o lado se manifestam apreciadores e defensores daquele concerto tradicional tão rico em significado e musicalidade. Esta expansão não diminuiu, de forma alguma, o papel dos estudantes de Coimbra na sua evolução e adaptação às novas circunstâncias históricas e sociais de cada momento. Eles continuam, de geração para geração, de ano após ano, a renová-la com novas expressões, novas melodias, novas interpretações, com vozes jovens de pujança em corações ardentes. Dai o facto da Serenata ser sempre actual e ter contribuÍdo, de maneira decisiva, para que Coimbra, a terra que lhe deu paternidade, seja considerada sempre "a menina e moça", sonhadora e romântica. Cidade da juventude, terra da saudade, capital do amor, todos os anos revitalizada com nova camada de jovens que aqui vivem os melhores anos da sua vida. Tenta e seduz de tal maneira os que aqui estudam, que todos ficam enfeitiçados e eternamente enamorados. Mesmo distantes destes lugares sagrados da juventude, todos relembram com saudade, os momentos aqui vividos e sentem a necessidade de um dia vir novamente reviver a sua mocidade. 

O sentimento é de tal forma generalizado que até chegam a sentir saudades dela (Coimbra) os que nela nunca viveram.

Foram sempre os estudantes os mentores da criatividade e da divulgação da Serenata pelo mundo fora. Por essa razão não poderá ser concebida sem que os seus executantes estejam envolvidos pela velha capa negra. O cantor traçará a capa de tal modo que, do negrume das suas vestimentas, apenas fica visÍvel e realçada a sua cabeça. 

Em tempos idos eram muito frequentes as serenatas em Coimbra. Os condicionalismos da vida desses tempos facilitavam a frequência dessas manifestações dos estudantes. Para se compreender a sua importância não se podem ignorar as dificuldades que outrora barreiravam os que pretendiam aproximar-se de uma jovem. Com as alterações impostas pela evolução do tempo, a maneira de viver e de estar em sociedade transformaram-se radicalmente, fazendo surgir novos conceitos sociais. 

Os jovens já não necessitam de superar as barreiras que outrora os separavam. Ela deixou a janela, velo para a rua, pôs a capa pelos ombros e entrou na Universidade. Uns e outros convivem agora de perto no seu dia-a-dia, sentem os mesmos anseios e participam nos mesmos sonhos. 

A Serenata deixara de desempenhar o que, até então, era o seu papel principal. Teria mesmo morrido ou entrado no esquecimento de uma arrumação museológica se não possuÍsse outros atributos dos quais não podemos deixar de destacar um a que o ser humano é sempre sensÍvel — o culto do que é belo. 

Foi a sua beleza, e o seu simbolismo que tornaram a Serenata como algo muito querido e perene nas tradições académicas coimbrãs. Ela está sempre presente em todos aqueles que um dia tiveram o ensejo de serem estudantes de Coimbra. Esse facto desperta o coração da juventude para a esperança renovada de um futuro risonho e, ao mesmo tempo, lança-o na quietude atormentada de uma saudade que, mais tarde, irá sentir dessa mocidade romântica e irrequieta que ainda agora começou a despontar. Sente-se, em tudo isto, algo de mÍstico e fascinante neste viver da Coimbra romântica.

é na rua e em noites luarentas que se cria o cenário mais adequado para a celebração da Serenata. Em qualquer lugar ela pode surgir, mas toma aspectos de consagração quando realizada na escadaria do portal da fachada poente da Sé Velha de Coimbra. é ali que se realizam as famosas Serenatas Monumentais com o fim de comemorar acontecimentos ou para abertura de festas académicas, como é o caso da "Queima das Fitas"...

Estas serenatas distinguem-se das restantes por serem anunciadas com antecedência, o que motiva a afluência de grandes multidões. Este facto, só por si, quebra naturalmente o ambiente de discrição que deve imperar numa serenata. Mas, muitas vezes, essa situação anómala é agravada com o comportamento de pouca compostura de alguns que, embora em numero reduzido, dão uma imagem pouco de acordo com aquela que é própria da serenata tradicional — silêncio conventual e emocionante. Também se nota, com maior ou menor intensidade, a atitude de se tossir ou provocar sons guturais, no final da execução de cada peça, o que é de lamentar. Tem-se procurado eliminar esta manifestação de muita falta de gosto e sem raÍzes tradicionais. 

Desde o inÍcio de uma serenata até ao seu último acorde, não há, portanto, qualquer tipo de manifestação de maior ou menor concordância na interpretação ou execução das peças seleccionadas. A Serenata considera-se um todo. As canções e as variações apresentadas são apenas partes de um concerto, de forma idêntica à execução de uma peça sinfónica em que os andamentos são executados com pequenos intervalos entre si, sem que o público se manifeste. Só depois dos últimos harpejos da Balada de Coimbra, fecho da Serenata, se terem desvanecido no etéreo auditório, este, despertado dos momentos vividos, tem então oportunidade de manifestar as suas impressões sem, contudo, bater palmas. 

Assim se transplanta para um ambiente público generalizado, aquilo que tradicionalmente se fazia, quase em segredo. da rua para a janela. 
Em geral nas Serenatas Monumentais participa mais do que um grupo de executantes. Cada grupo, vulgarmente, é formado por três ou quatro guitarristas-violistas e dois ou três cantores. Só excepcionalmente o número de elementos será diferente. 

A Serenata abre sempre com o "indicativo" que consta de acordes de guitarra e viola. Este, para além de ser o prelúdio, tem também a função de identificar o grupo actuante. é, por conseguinte, evidente, que cada grupo tem o seu indicativo próprio. 
Seguem-se-lhe as peças cantadas. 

Os estudantes têm sempre caprichado por executar peças escritas e musicadas por membros da sua comunidade, isto é, por actuais ou antigos estudantes de Coimbra. São poucos os que têm conhecimentos de técnica musical. Essa deficiência, no entanto, é superada, sobretudo, pela intuição, pela força do sentimento que o ambiente académico lhes imprime e pela contribuição da própria "paisagem melancolicamente dulcificada" que os rodeia. 
Muitas vezes as canções executadas por eles são de origem popular. Durante séculos a Universidade de Coimbra foi a única universidade portuguesa e, por isso, nela ingressavam estudantes oriundos das mais variadas parcelas do território português, desde as mais isoladas provÍncias da Metrópole às mais longÍnquas do Ultramar, incluindo a Índia e o Brasil. Esses estudantes traziam consigo canções populares das suas terras que, em Coimbra, assumiram caracterÍsticas diferentes não só pelo contacto com influências de outras regiões mas também com o próprio ambiente coimbrão. Assim, essas canções populares transformaram-se em composições mais subtis, mais delicadas e até de sentimento mais profundo. 

A canção de Coimbra tem, portanto, duas origens distintas: uma popular, burilada pelos estudantes e outra erudita de produção genuinamente académica. Tanto umas como outras tendem para o mesmo fundamento temático. São quase todas nostálgicas, de acordo com o câmbio corrente e tradicional de transformar o amor em eterna saudade e, por isso, qualquer delas se pode cantar na Serenata. Mas, de todas — fado, balada, canção e trova, a mais divulgada pelo nome e pela frequência de escolha, é, sem duvida, a que foi distinguida com o nome de Fado de Coimbra. 

Não sendo oportuno tratar cada uma delas por si, limitar-nos-emos a salientar que o Fado de Coimbra, também conhecido por fado-canção e fado-serenata, nada tem a ver com o Fado de Lisboa. Entre um e outro há apenas um leve parentesco: o tacto de terem, em comum, o nome — fado, além das caracterÍsticas semelhantes dos instrumentos. Essa semelhança é ainda avolumada no que se relaciona com o número de guitarras e violas que entram na parte instrumental. Quanto ao resto, existe acentuado fosso entre ambos: nas origens, nas melodias, nas letras, na técnica de dedilhar a guitarra, nas caracterÍsticas das vozes e até nos locais onde são normalmente ouvidos. 

O Fado de Coimbra é avesso a recintos fechados. Nasceu para ser cantado em serenatas. Esse tacto exige que se faça ouvir, de preferência, sob a maior e incomparável cobertura de um auditório — o firmamento. 

Nas apresentações em casas de espectáculo não se deve dar o nome de serenata à participação de grupos que executam as mesmas peças das serenatas, uma vez que estas, como já dissemos, acontecem ao ar livre. Esses momentos artÍsticos devem denominar-se "fados e guitarradas de Coimbra". 
Aqui, já não se justifica exigir silêncio após a execução das peças apresentadas. Pelo contrário, parece-nos que, como em qualquer espectáculo, o público poderá manifestar-se como entender, sem obedecer a qualquer restrição como na serenata tradicional. 

Como já vimos, numa serenata podem entrar não só o fado, mas também todas as outras formas musicadas pelos estudantes de Coimbra. Quase todas elas se enquadram perfeitamente no seu espÍrito e lhe comunicam certas mudanças melódicas e rÍtmicas sem quebrar a sua homogeneidade. 

Depois de me ter referido ao significado, ao ritual e às formas de expressão da Serenata, não quero terminar sem me referir ao agradecimento tradicional de quem ouviu e se sentiu merecedor dessa homenagem. 

Uma das manifestações de agradecimento, não se sabe desde quando, tomou raÍzes na tradição — o sinal luminoso. Noutros tempos, a homenageada, discretamente, vinha por detrás dos vidros com uma candeia ou lanterna acesa e passando repetidas vezes a mão ou um objecto pela frente da luz, provocava o desaparecimento desta, dando origem ao sinal de claro-escuro como agradecimento. Hoje esse ritual é substituÍdo pelo apagar e acender da luz eléctrica em sequência intermitente.

Esperamos que estas notas possam motivar no vosso espÍrito algumas reflexões sobre a importância que o acto de cantar pode exercer nas relações humanas, quer nas comunidades em que cada um vive quer muito especialmente, no nosso meio académico. 

 


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Última atualização: 06/03/2010