José António Serrano

Filho único de José Pedro Serrano e de Ana Catarina Serrano, o Professor Dr. José António Serrano nasceu em Castelo de Vide, na Rua do Mercado, a 6 de Outubro de 1851. Era neto paterno de José Martins Serrano e Teresa de Jesus, e materno de António Lourenço Tardão e Maria Eugénia, sendo baptizado em 12 de Outubro do mesmo ano na Igreja de Santa Maria da Devesa, sendo padrinhos o avô paterno e o avô materno que tocou com a coroa da Senhora D´Alegria.

Depois da instrução primária em Castelo de Vide e Portalegre passou para o colégio Europeu, ao Conde Barão, em Lisboa, onde fez os preparatórios para a Escola Politécnica.

De índole árida e seca, como escreveu Possidónio Laranjo Coelho, era no entanto de carácter bondoso, revelando desde logo grande força de vontade e inteligência, ocupando muito do seu tempo livre a estudar e a escrever, mostrando certa tendência para as letras.

Em 30 de Setembro de 1870 matriculou-se na escola Médica, em Lisboa, mas passando as suas férias a Castelo de Vide.

Com o Dr. João Augusto de Carvalho e o Dr. José Frederico Laranjo, o Padre José Baptista Duarte fundou numa modesta casa da Rua das Espinhosas, em Castelo de Vide, a “Associação dos Amigos do Estudo de Castelo de Vide”, que tinha por fim o desenvolvimento da instrução entre os seus associados. Esta curiosa e útil associação, teve os seus primeiros estatutos em 30 de Agosto de 1866, firmados por Alexandre Nunes de Carvalho e Sequeira, António Carlos de Farinha Pereira e César Augusto de Faria Videira, e quatro anos depois passou a Grémio Popular de Castelo de Vide. No âmbito dessa actividade proferiu, entre outras, uma palestra nos Paços do Concelho de Castelo de Vide, em 10 de Setembro de 1871, que veio a ser publicada no Instituto, pp. 169 a 195, sob o título “A Instrução em Portugal”. 

Em 1875 completava o curso e regressava a Castelo de Vide, onde começou a exercer medicina. Mas as coisas não lhe correram bem, sem que isso tivesse que ver com o exercício da profissão. Substituindo temporariamente o Dr. Alves de Sousa no hospital da Misericórdia, um problema disciplinar com um enfermeiro e uma questão com a administração da Misericórdia, respeitante ao mesmo, acabaram por levar Serrano, magoado, a voltar para Lisboa, com grande e natural desgosto para o pai. Para esta questão, que se arrastou penosamente, criando-lhe um desagradável ambiente na vila, não terão sido alheias interferências políticas de carácter partidário, o que a transcrição que segue aliás deixa transparecer. Laranjo Coelho transcreve parte de uma carta que ele próprio dirigiu a uma outra pessoa amiga, referindo-se ao caso assim: “A primeira guerra foi feita ao Dr. Serrano no Hospital da Misericórdia; ele substituía ali durante uma temporada de banhos o Sr. Dr. Alves de Sousa; o enfermeiro mor não lhe cumpria as ordens, alterando as dietas e não nos lembramos se também o receituário; o Serrano sentiu-se e queixou-se; confiado na influência que tinha adquirido na povoação, e desejando desagravar o Dr. Serrano, eu mandei avisar o enfermeiro de que, se lhe renovasse a desconsideração, o faria exonerar; ele repetiu-a, e eu pude fazer cumprir o aviso; mas os dirigentes da Misericórdia, que a tomaram de aforamento perpétuo, tão perpétuo que se julgavam os donos dela, começaram a olhar com receio para aqueles rapazes, que tinham vindo das escolas superiores do país carregados de distinções e que não se deixavam pisar; resolveram então cortar-lhes as asas, pelo menos, para se confirmar, mais uma vez, o velho provérbio de que «santos da casa não fazem milagres»”.   

Incompatibilizado assim com a sua terra, deixou de vir a Castelo de Vide, onde só voltaria mais tarde.

O Dr. Serrano foi médico ilustre e notável professor de Anatomia na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, onde em 1875 apresentava e defendia a sua tese intitulada “Dos nervos vaso motores".

Em 13 de Janeiro de 1877 é eleito sócio titular da Sociedade de Ciências Médicas, e em 13 de Maio de 1880 é nomeado demonstrador da secção cirúrgica da Escola Médica, sendo promovido a lente substituto da mesma secção em 19 de Setembro do mesmo ano.

Por decreto de 12 de Março de 1878 é nomeado, precedendo concurso, Preparador e Conservador do museu de anatomia.

Designado interinamente cirurgião do Banco do Hospital de S. José em 1879, é provido definitivamente nesse lugar por Decreto de 18 de Julho de 1881, tendo sido o 1º classificado no respectivo Concurso.

Entrou em 1901 para a Academia Real das Ciências como sócio efectivo onde apresentou o trabalho “Osteologia Humana", que além de receber o Prémio D. Luís, conferido pela Academia, levou o seu nome às escolas e academias do estrangeiro.

A 2 de Julho de 1885 é nomeado professor da primeira cadeira auxiliar de anatomia artística da Escola de Belas Artes de Lisboa.

Em 2 de Julho de 1895 é eleito vice-presidente da Sociedade das Ciências Médicas.

É nomeado em 30 de Março de 1895 director da enfermaria de S. Fernando no Hospital de Desterro. 

Em 28 de Julho de 1898 passou a exercer as funções de secretário e bibliotecário de Escola Médica, e por nomeação de 18 de Setembro de 1901 director da repartição de estatística do Hospital de S. José.  
De 1886 a 1891 dirige também a Casa de Saúde Lisbonense.

O Dr. José António Serrano foi sócio correspondente do Instituto de Coimbra, sócio efectivo da Academia Real das Ciências, da Sociedade de Geografia de Lisboa, vogal da subcomissão da divulgação da Assistência Nacional aos Tuberculoses, Presidente da Comissão de Legislação da Liga Nacional contra a Tuberculose, sócio da Sociedade de Medicina e Cirurgia de S. Paulo, da Academia Etrusca de Cortona e da Academia Nacional de Medicina e Cirurgia, de Cádis, Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Médicos Portugueses e da Caixa de Socorros a Estudantes Pobres.

Além do seu labor e dos trabalhos como médico e cientista, deixou ainda vários artigos em jornais e revistas, entre os quais:
- “Misericórdia de Castelo de Vide” – artigo publicado no semanário de Elvas Luz do Alentejo,1870.
- “A Estátua de D. Pedro V em Castelo de Vide” – artigos publicados no jornal de Lisboa “Jornal do Comércio”, de 1 de Outubro de 1870.
- “As Festas da reabertura da Igreja Matriz, e da inauguração da estátua de D. Pedro V em Castelo de Vide” – artigos publicados no jornal “O Paiz” de 1 a 7 de Novembro de 1873 (n.º 248 a 252), Lisboa.
- “A instrução popular” – conferência proferida, no dia 10 de Setembro de 1871, no salão da Câmara Municipal de Castelo de Vide, na inauguração do “Grémio Illustração Popular”, publicada no “Instituto de Coimbra”, no volume 15, pp. 169-172,195-198.
- “As Eleições Municipais de Castelo de Vide” - no jornal do partido Progressista «O Progresso», de Lisboa, dias 14 e 15 de Dezembro de 1877.

Em 1de Janeiro de 1902, na Sociedade Artística Popular de Castelo de Vide, foi inaugurado, em sessão solene, o seu retrato. Presidiu ao acto o Dr. José Frederico Laranjo, que para o efeito expressamente se deslocou a Castelo de Vide, e fez o elogio do Dr. Serrano, seu íntimo amigo. Usaram ainda da palavra, o Rev.º Padre Henrique Gonçalves, o Dr. Possidónio Laranjo Coelho e o Prof. João António da Silva. E no dia seguinte é eleito vice-presidente desta Sociedade, que se fundara em 10 de Junho de 1883.

Por deliberação unânime da Câmara Municipal de Castelo de Vide, de 24 de Agosto de 1903, é dado o seu nome à rua que até então se denominava Rua Cega e onde se situa a casa morou a família. A proposta foi apresentada pelo presidente Ramiro César Murta.

A 21 de Dezembro de 1904, inaugura-se na Sala das Sessões dos Paços do Concelho de Castelo de Vide, o retrato do distinto médico.

Faleceu, com 53 anos, no estado de solteiro, em 7 de Dezembro de 1904, na sua residência na Travessa do Fala-Só, em Lisboa. No seu testamento lega à Câmara de Castelo de Vide os bens imóveis que possui neste Concelho para que fossem vendidos à vontade do testamenteiro, e convertido o produto em inscrições de assentamento averbadas à Câmara Municipal, e de que fica usufrutuária D. Laura Salles Lisboa e por falecimento desta, entrar na posse plena das inscrições; estes ou os seus rendimentos serem aplicados para uma “casa de escola” e Biblioteca municipal, nos termos e condições expressas no testamento. Lega também à Câmara para a Biblioteca municipal todos os seus livros de literatura e dois exemplares das obras que tiver publicado e também o retrato de seu pai, que está na sua casa em Lisboa, para ser colocado na sala da Biblioteca municipal. Impõe à sua herdeira Laura Sales Lisboa a obrigação de mandar construir um modesto jazigo de capela no cemitério de Castelo de Vide, para nele se recolherem os restos mortais de seu pai, os seus e doutras pessoas que indica.   

Em “O Distrito de Portalegre” de 1904 José Frederico Laranjo escreve: Em 25 de Setembro de 1905 faz-se a transladação solene para jazigo no cemitério da vila, dos seus restos mortais. Foi uma das mais sentidas e concorridas manifestações fúnebres a que se assistiu em Castelo de Vide”.

Diogo Salema Cordeiro

In http://fontedavila.org/personalidades.aspx?menu=25&modo=det&ide=16


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Última atualização: 15/09/2012