Frei Heitor Pinto


Heitor Pinto é considerado um dos melhores clássicos da literatura portuguesa.
Nasceu na Covilhã, talvez no ano de 1528. No capítulo XVIII do "Diálogo dos Verdadeiros e Falsos Bens", da sua obra "Imagem da Vida Cristã", o discípulo diz ao mestre, o próprio Heitor Pinto: "E eu já vos ouvi dizer que, andando por terras estranhas, suspiráveis por Portugal, e algumas vezes vos ouvi particularmente louvar a própria terra onde nascestes...chamada antigamente Cova Júlia, hoje Covilhã".
Nos "Autos e Provas de Cursos" da Universidade de Coimbra, Heitor Pinto assina-se Frei Heitor da Covilhã, nome com que professou no Mosteiro de Santa Maria de Belém, aos 8 de Abril de 1543. Cunhais de Figueiredo diz-nos que ele se assinou posteriormente Heitor Pinto, indo buscar tal apelido aos antepassados.
Contrariando os que dão o Heitor Lusitano - como também lhe chamaram - natural da Vila de Melo, o historiógrafo covilhanense Dr. Luís Fernando Carvalho Dias averiguou que o documento da sua profissão de fé o dá como originário da diocese da Guarda, enquanto a Vila de Melo pertence à diocese de Coimbra.
Frei Heitor Pinto fez os seus estudos eclesiásticos no Convento da Costa em Coimbra, onde foi colega de D. António Prior do Crato, filho do Infante D. Luís, que teve o senhorio da Covilhã. Por carta de El-Rei, foi-lhe dado o grau de Mestre em 1554, tendo depois passado à Universidade de Siguença, onde tomou a borla doutoral em teologia. Em 1559, assistiu à coroação do Papa Pio IV, em Roma, onde se encontrava em negócios da sua Ordem. Foi Reitor do Colégio da Ordem em 1565, e mais tarde, em 1571, seria eleito Providencial em Portugal. Na mesma data publicou a sua obra "in Isaiam Prophetarum Commentaria".
Sendo já doutor pela Universidade de Siguença, doutorou-se em teologia, em 9 de Maio de 1576, pela Universidade de Coimbra. O próprio Rei D. Sebastião, querendo "ilustrar a Academia com a doutrina de tão insigne varão", mandou que se criasse a cadeira de Sagrada Escritura, para a qual foi nomeado lente o doutíssimo frade covilhanense. Por esse tempo (1575/1579) escreveu comentários sobre os profetas Daniel e Jeremias.
O último Conselho a que assistiu, na Universidade de Coimbra, foi em 19 de Agosto de 1579, reunido para deliberar sobre a recepção a D. António Prior do Crato. Aproximavam-se dias negros para a Pátria. Sabe-se que defendeu a causa do seu desaventurado amigo, como pertencente à Coroa, e como por isso foi perseguido por Filipe II. Com mero pretexto de o fazer seu conselheiro, obrigou o monarca espanhol a seguir para Espanha em 1583. Consta que o grande português então se lamentou: "El-Rei Filipe me quer meter em Castela, mas Castela em mim é impossível". Em um dos seus "Diálogos", suspira por Portugal, preferindo na sua Pátria ter uma pobreza contente, que lá fora "quaisquer delícias ou riquezas". Já se deixa ver quanta mágoa lhe causaria a perda de independência nacional, e com que ardente vontade defenderia a causa nacional.
O que lhe sucedeu até à sua morte, ocorrida no ano de 1584, não está definitivamente apurado. Diz-se que foi recluso, com outros religiosos, no Mosteiro de Sisla, fora dos muros de Toledo, onde terá morrido. O Dr. Carvalho Dias tentou em vão localizar este Mosteiro de que não resta memória. D. António Prior do Crato escreveu uma carta ao Papa Gregório XII, onde insinuava que Filipe II mandara envenenar Heitor Pinto. Na pedra tumular, no referido claustro, consta que alguém terá colocado o seguinte epitáfio, não se sabe se por piedade, se por ironia: "Aqui jaze Heitor, aquele lusitano".
Na História da Literatura Portuguesa, Heitor Pinto é um clássico, que iguala, em pureza de linguagem e profundidade de conceitos, Vieira e Manuel Bernardes. Frei Francisco dos Santos, na sua "História da Ordem de São Jerónimo", chama-lhe "esplendor da Universidade de Coimbra e de todo o Reino Lusitano". Em toda a sua obra, revela uma espantosa erudição, sobretudo na teologia e nos Livros Sagrados em cuja leitura consumira a "mor parte da sua idade". Em toda a sua prosa abundam as citações dos mais variados autores, desde Fídias a Homero, de Heródoto a Santo Agostinho. E desmerece por isso, já que, sem citações, o seu estilo torna-se mais límpido e sereno, tal rio correndo com cintilações de céu.
Na sua obra fundamental "Imagem da Vida Cristã", escrita à maneira dos "Diálogos" de Platão, o "Mestre" dialoga com os discípulos, procurando transmitir-lhes, com toda a sua cultura religiosa e clássica, a imagem da vida cristã, quer dizer, o ideal dessa vida.
No "Diálogo da Justiça", diz o matemático para o teólogo: "Vós haveis de tomar entre as mãos a matéria, trazendo para isso não somente partes da teologia, mas também sentenças de filósofos e histórias antigas, que sei fostes dado a lê-las, e ainda agora depois que vos achais cansados do grave estudo da teologia, folgais de tomar na mão um livro de humanidades".
A vida de Heitor Pinto decorreu calma e austera, excepto no concurso, em 1558, à cadeira de Sagrada Escritura na Universidade de Salamanca, e nos trágicos anos do seu forçado exílio. No "Diálogo da Religião", refere que teve muitos trabalhos em Roma, em negócios da Ordem, recordando então os tempos em que vivia "muito contente, num repouso solitário dado ao estudo das divinas letras, estando em Portugal o mais tempo metido na cela...". na própria definição de bom religioso, ele foi "profundo na humildade, alto na contemplação, lembrado de Deus, esquecido do mundo, frio no amor da terra, abalizado no amor de Deus".
Além do acentuado uso de citações, há outra característica na obra de Heitor da Covilhã, que é a abundância de comparações. Quase sempre felizes, posto que uma ou outra arrojada, tal esta: "Assim como o piloto depois de cansado de longa navegação, achando lugar oportuno lança âncora para descansar, assim eu, cansado de longa prática, quero lançar âncora à língua e amainar as velas às minhas palavras".
Como monge em sua cela, Heitor Pinto recomenda-nos o propósito de "deixarmos as falsas opiniões do mundo, e suas vaidades, e suas maldades, e contemplarmos a Divina Bondade". Como beirão que era, faz timbre na amizade, e dedica um formosíssimo "Diálogo" a esse nobre sentimento. Daí esta comparação: "Assim como as ervas do Outono nascem frescas com as primeiras águas, mas queimam-se logo com os frios de Novembro, assim as amizades inconstantes começam com as primeiras palavras do primeiro encontro e acabam-se à primeira experiência que dela se faz".
A primeira edição da "Imagem da Vida Cristã" saiu em 1563, organizada por Gaspar Barreiros, só com a primeira parte, incluídos os Diálogos da Filosofia, da Religião, da Justiça, da Tribulação, da Vida Solitária e da Lembrança da Morte. A segunda parte da obra, com os restantes diálogos, apareceu em 1572. São publicadas em 1681 as duas partes num só volume, em edição de Miguel Manescal. Houve posteriormente várias edições, sendo a última da Livraria Sá da Costa, coordenada pelo Padre Alves Correia.

Adaptado de http://www.cm-covilha.pt/simples/?f=2397


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Última atualização: 29/06/2014