Elysio de Azevedo e Moura nasceu, em Braga, a 3 de Agosto de 1877 e
viria a falecer, em Coimbra, a 18 de Julho de 1977 quando faltava um mês
e meio para completar cem anos.
Filho de José Alves Moura, que foi Professor e Reitor do Liceu em Braga,
e de EmÍlia da Costa Pereira de Azevedo e Moura foi o único, entre os
nove irmãos que teve, a seguir Medicina na Faculdade de Medicina da
Universidade de Coimbra.
Foi casado com Celestina de Araújo Salgado Zenha de Azevedo e Moura,
natural do Rio de Janeiro, que viria a falecer no ano de 1945, não tendo
existido filhos por parte do casal. Talvez, por isso, se possa explicar
o facto de Elysio de Moura e sua esposa se dedicarem "de alma e
coração", "não se pouparem aos maiores sacrifÍcios" para revitalizar a
instituição "Asilo da Infância Desvalida" que, em 1967, passa a
designar-se "Casa da Infância Doutor Elysio de Moura". Esta instituição
recebia e recebe crianças do sexo feminino, em situação de risco social,
para serem "amparadas, tratadas e orientadas com todo o carinho, desvelo
e cuidado" (cit. Testemunhos, 1778: 40) como o próprio Elysio de Moura
fez referir no seu Testamento, elaborado a 25 de Abril de 1977.
Mas, então, que vida e obra foi a deste homem a quem o Governo Civil de
Coimbra tomou a iniciativa de promover uma homenagem a nÍvel nacional,
que seria constituÍda por acções de diferente natureza, para festejar o
seu aniversário? Que vida e obra deixou este homem que recusava publicar
os seus escritos, que recusava condecorações e homenagens e cuja notÍcia
da sua morte abalou, no paÍs, tanto os que privaram com ele, como as
entidades oficiais, como os anónimos cidadãos?
Homens notáveis de várias áreas puderam na altura escrever o seu
testemunho sobre o colega, o amigo, o professor, o médico, o clÍnico, o
cristão, o filantropo enfim, o homem que Ramos Lopes apelidou o "Mestre
de muitas gerações" e cuja vida e obra está inscrita na galeria dos
notáveis homens de vanguarda para quem não há passado, presente e
futuro.
Manuel Paiva Boléo, Adriano Vaz Serra, Armando Simões de Carvalho, Luis
Duarte Santos, Ramos Lopes, Telo de Morais, Barahona Fernandes, Fernando
Namora, Bispo João Alves, Fernando Vale, Tavares Sousa, Lino Vinhal,
entre outros, são algumas das personalidades que, pelo testemunho que
dão, fazem-nos sentir a notariedade de um homem que foi de Coimbra, de
Portugal e do Mundo. Elysio de Moura era dotado de uma "inteligência
excepcional", "um homem de ciência" ao nÍvel da neuropsiquiatria,
psicoterapia e psicossomática mas, que nunca se deixou vislumbrar pela
sua luminosidade. Como escreveu Adriano Vaz Serra "a sua humildade era
notável" a nÍvel profissional e pessoal "fugindo de actos pomposos,
evitando honras públicas, desprendendo-se em relação aos bens materiais,
sensÍvel perante os outros, o trabalho e a obra que desenvolveu" (cit.
Testemunhos, 1978: 21-22), por isso, merece o respeito, estima e
admiração de todos pela dignidade e brilho com que se envolvia em todas
as actividades.
"Os homens grandes são assim" (cit. Testemunhos, 1978: 25) e estou certa
que as maiores homenagens são aquelas que se recebem quando não se está
presente e, até nisso, Elysio de Moura foi sábio. A sua saúde debilitada
acelerou o seu falecimento e, nem Elysio de Moura recebeu as homenagens
em vida nem, mesmo, tomou conhecimento do livro "Elysio de Moura: Vida e
Obra- Testemunhos" que só foi publicado um ano depois do seu
falecimento, a 18 de Julho de 1978.
Mas, afinal, que vida foi a deste homem cuja vida escolar sempre se
distinguiu pela precocidade e brilho?
Aos 8 anos de idade completou, com distinção, a instrução primária, aos
14 anos o Curso do Liceu em Braga, aos 15 anos inscreve-se, na
Universidade de Coimbra, simultaneamente em Matemática e Filosofia, aos
17 anos inscreve-se na Faculdade de Medicina para frequentar o Curso de
Medicina, que viria a concluir em 1901, sem ter completado 24 anos, com
informação final de muito bom.
A sua carreira docente foi iniciada logo no ano seguinte, isto é, em
1902. Neste ano foi-lhe conferido o grau de Doutor com a Dissertação "A
toxidez da urina" (volume I) e prestou provas para Professor da
Faculdade de Medicina com três trabalhos: "A toxidez da urina" (volume
II, "A linguagem articulada e a linguagem escrita" e a "Origem da força
muscular", tendo sido aprovado com muito bom por unanimidade.
Em finais de 1902 foi nomeado Professor substituto da disciplina de
Patologia Interna, que era da responsabilidade do Prof. Doutor José
Matos Sobral Cid e, no ano seguinte, inicia a regência da disciplina de
Propedêutica Médica.
Em 1910 foi nomeado Catedrático tendo ficado com a cátedra da 1ª Clinica
Médica e iniciou a regência da ClÍnica Neurológica. Com o falecimento do
Prof. Doutor António de Pádua, em 1914, torna-se regente da disciplina
de ClÍnica Psiquiatrica e, quatro anos depois, assume a regência do
Curso de Psiquiatria Forense.
A 25 de Novembro de 1942 foi nomeado Catedrático da ClÍnica Psiquiátrica
e, em 1947, ao proferir a sua última lição foi alvo de grandes
manifestações de apreço por parte de discÍpulos, colegas e amigos.
Quando chegou o tempo da sua jubilação a lição que proferiu "Da histeria
ao pitianismo, do pitianismo à simulação", quando completou 30 anos de
formatura, em pleno vigor das faculdades intelectuais, foi brilhante e
encantou, mais uma vez, todos quanto o ouviam.
No decurso da sua vida académica teve oportunidade de representar a
Faculdade de Medicina em vários Congressos internacionais sobre Medicina
Geral, Neurologia e Psiquiatria que decorreram em Inglaterra, França,
Suiça, Espanha e Alemanha. Pertenceu, também, a várias sociedades
cientificas nacionais e estrangeiras como o Instituto de Coimbra,
Académie Internationale pour le Progrés des Sciences Médicales,
Association des Médecins Aliénites et Neurologistes de France et des
Pays de Langue Française e foi sócio honorário da Societé de Médecine
Mentale de Belgique, Societé Médico-Psychologique de Paris e membro da
Comissão de Honra da Union Médicale Latine.
Em articulação com a actividade docente, Elysio de Moura, não descurou a
vertente cientifica e clÍnica. Em Portugal privou com nomes como os
Doutores Ângelo da Fonseca (na área da Urologia), Sobral Cid (na área da
Psiquiatria) e Egas Moniz (na área da Angiografia Cerebral e da
Psicocirugia e que foi prémio Nóbel). A nÍvel internacional tomava
conhecimento das diversas correntes e dos quadros clÍnicos das
especialidades a que se dedicou, pois, os grandes estrategas do edifÍcio
neurológico, psiquiátrico e psicológico como Romberg, Charcot, Esquirol,
Lasègue, Morel, Magnan, Wernicke, Jaspers, Kraepelin, Freud, entre
outros, tinham fundado os seus alicerces e Elysio de Moura privou
frequentemente com os grandes vultos contemporâneos da sua
especialidade.
Neste contexto, o Doutor Elysio de Moura aplicou de forma brilhante os
seus vastos conhecimentos e rica experiência clÍnica o que lhe permitiu
proferir magistrais lições mas, também, exactidão a nÍvel do diagnóstico
e da intervenção clÍnica. Estes aspectos foram o motivo pelo qual era
procurado por pacientes de todo pais, Espanha e Brasil que vieram a
constituir a casuística que apresentava nas aulas como também o que
provou a necessidade crucial de construir um pavilhão para dar a
assistência adequada aos doentes. No contacto com os doentes, a sua
capacidade dedutiva e indutiva, fê-lo revelar-se "um clÍnico de
prestigio", um "Homem de espirito sagaz, com notável capacidade de
análise e síntese, facilmente apanhava no essencial o caso clÍnico que
lhe surgisse" (cit. Testemunhos, 1978:11).
Paralelamente a estas actividades participou na organização do exercÍcio
da Medicina quando, depois da criada Associação dos Médicos Portugueses
(em 1898) criou a Ordem dos Médicos, em 1938, da qual foi eleito o seu
primeiro Presidente.
Muitas outras facetas do Doutor Elysio de Moura podem ser reveladas e
que, de certo modo, já foram referidas: a sua humildade natural, a
recusa sucessiva a várias homenagens (excepto aquelas em que era
surpreendido e que lhe foram concedidas por mérito) e a diferentes
cargos inclusive polÍticos.
Apesar do seu espÍrito tolerante em que sempre estabeleceu as melhores
relações revoltava-se, como escreveu Carminé Nobre, contra "as
politiquices politicantes dos politiqueiros" (cit. Testemunhos, 1978:
16).
Ao longo da sua vida, mais do que lutar por si lutou pelos outros;
exemplo dessa atitude foi a dedicação que manifestou até ao momento do
seu falecimento à "Casa de Infância Doutor Elysio de Moura". A sua
dedicação a esta obra social foi um factor decisivo para a especial
relevância que gozava a instituição quer nos meios académicos quer na
cidade de Coimbra e que, ainda, hoje se mantém viva. Foi com os
finalistas de Medicina, que ao desejarem colaborar com o Mestre se
iniciou a tradição da "Venda da Pasta" num dos dias em que decorria a
"Queima das Fitas". Desde essa altura até hoje há um dia em que os
estudantes, saem pelas ruas da cidade, acompanhados por uma ou mais
meninas da "Casa da Infância", para vender pastas em miniatura com fitas
que possuem as cores de todas as Faculdades e a este acto os cidadãos de
Coimbra correspondem generosamente, contribuindo para o aumento das
receitas desta obra filantrópica.
Obras publicadas por Elysio de Moura:
- "Estudo crítico e experimental sobre o fósfero urinário" in Coimbra
Médica, nºs 26 a 36, 1900;
- "Nota sobre um caso de tétano agudo seguido de morte" in Coimbra
Médica, nº1 a 5, 1901;
- "Demente que aos 77 anos testou, sem dar por isso, e que aos 79
casou... também sem dar por isso!"- Petição e réplica dos Advogados J.S.
da Cunha e Costa e E.M. da Cunha e Costa, e pareceres médico-legais dos
Exmºs Srs. Drs. Elysio de Moura, Marques dos Santos, Egas Moniz e Sobral
Cid, 1924;
- "Discursos", in Homenagem ao Prof. Magalhães Lemos prestada na
Faculdade de Medicina do Porto, em 24 de Junho de 1925. Porto, 1927;
- Congrès de Psychiatrie et de Neurologie- Bruxelles: 22-28 Juillet,
1935. Alocução do Prof. Elysio de Moura, como Delegado da Universidade
de Coimbra;
- O primeiro Conselho Geral da Ordem dos Médicos, in Boletim da Ordem
dos Médicos, ano I, fasc.I, 1940;
- Anorexia Mental. Acta Universitatis Conimbrigensis, 1947, 141p.
- Parecer médico-legal sobre os resultados do exame mental feito a D.
R.J.H.. Minuta de apelação para a Relação de Coimbra do Advogado
Silvério Lobo. Coimbra, 1947;
- Anotações a um parecer médico-legal. Braga, 1969.
por Sara Cristina Martins Lopes
in http://www.psicologia.org.br/internacional/artigo2.htm
Ver Mostra Filatélica temática de Medicina, entre 1 e 4 de Julho de 1977
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