Camilo Castelo Branco

 

imagens/selo_camilo02.jpg Romancista, poeta, dramaturgo e historiador literário português nascido em Lisboa, considerado modelo da língua literária de sua época, e fundamental na história da prosa de ficção do português, principalmente como imagens/cc_19900604_vnfamalicao_1centcamilo.gifromancista. Muito popular na época sofreu influência das várias tendências da literatura europeia do século XIX, mas é sobretudo um romântico. Cedo perdeu os pais e foi criado por parentes, passando por muitas dificuldades na infância e adolescência. Casou-se aos 16 anos, mas logo abandonou a mulher e foi para o Porto, onde iniciou um curso de medicina (1844) e direito em Coimbra (1845), mas desistiu dos estudos. Ingressou no jornalismo (1848) e, dois anos depois, matriculou-se no seminário do Porto (1850), que logo trocou pela vida boémia e a leitura de escritores franceses.

Teve vários casos amorosos, até se que se apaixonou por Ana Augusta Plácido, uma mulher casada com um comerciante, mas que abandonou o marido para viver com ele. Presos por adultério (1861), na cadeia escreveu, em duas semanas, Amor de Perdição, a sua obra mais conhecida, e publicada no ano seguinte. No livro, narra uma paixão que leva o protagonista ao crime e ao exílio. Ana Plácido enviuvou (1864) e ambos mudaram-se para São Miguel de Seide, ano em que também publicou Amor de Salvação. Sempre com muitos problemas financeiros, a concessão (1885) do título de visconde de Correia Botelho não lhe melhorou as condições de vida, agravadas pela doença e pela ameaça de cegueira, além da melancolia crescente e autodestrutiva. Vivendo de literatura, quase cego e com um filho louco, além de atormentado com os muitos problemas financeiros, suicidou-se com um tiro, em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, em 1 de Junho de 1890.

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Sobre Coimbra Camilo, escreveu (fonte: http://wikicamilo.net):

"Fez-se grandes saudades da Coimbra de 45 e 46 em que eu por aí estraguei duas batinas. A Maria Camela, que V. Ex.a. conheceu velhinha, era então uma gentil rapariga, a quem eu desfechava frases sentimentais, mas, sobre a matéria, incombustível. Ela foi a salamandra dos vulcões líricos que então flamejavam em Coimbra. Ouvia-me com um sorriso afectuoso enquanto eu me saturava do fósforo dos seus linguados e das suas tainhas."

Carta de Camilo a Cândido de Figueiredo (1882), In Andrade, Carlos Santarém – Coimbra na vida e na obra de Camilo. Coimbra : Coimbra Editora, 1990. p. 10.


"Entre 1840 e 46 não foi a Coimbra Lamartine subalterno que as não cantasse no estilo doentio de então. Solaus e madrigais. Um ideal de castelãs medievas, com umas rimas tão perfumadas de petrarquismo que nem elas tinham olfacto capaz de sentir o insidioso azote filtrado nos bagos de mirra. Aqueles amores que viram penujar o buço do sr. dr. Pedro Penedo e o meu, se andassem cantados trinta anos depois fariam zangaraviar guitarras em fadinhos de uma melancolia sem gramática sobre os bancos gordurosos da tia Maria Camela – Deus lhe fale na alma."

In Narcóticos . Porto : Companhia Portugueza Editora, 1920. vol. 1, p. 121.


[A respeito de Donas Boto:]

"Conheci-o em Coimbra em 1846 quando a minha batina esfrangalhada abria as sua trinta bocas para admirar e engolir o latim dum padre que não sei se era Simões. Coimbra é terra dos Simões. É como em Braga os Gaspares antigos. Mal diria eu que homem era aquele por dentro, quando o vi por fora, com os seus óculos de oiro no livreiro Posselius. Eu comprara o DICIONÁRIO de Morais; e ele, com uma gravidade protectora e paternal disse-me: - Faz bem, seu caloiro. Manuseie o bom Morais com mão diurna e nocturna. Gaste assim as suas economias, não as malbarate em fofas novelas gafadas de galicismos, nem vá por botequins a sorveteá-las nem por lupanares a desbotar as sua primaveras, nem por tavolagem a perder o dinheiro e a vergonha."

In Cancioneiro Alegre . Porto : Livraria Chardron, de Lello & Irmão, 1927. vol. 2, p. 22.


"Cá estou na estúpida Coimbra e na mais estúpida das ruas, - a Larga. A terra fede; é o aroma desta ciência daqui."

In Carta de Camilo ao Visconde de Ouguela, In Cabral, António – Camilo desconhecido. Lisboa : Livraria Ferreira, 1918. p. 195.


"Saberás, meu caro Negrão, que tenho vivido senão feliz ao menos pacificamente nesta muito linda cidade de Coimbra. Esta terra tem encantos, que só lhos conhece o homem de vida trabalhada de angustias, que vem refocilar-se nesta sacrossanta paz da modulada banza.
Aqui tudo é um requebro saudoso de vida a moyen age'. Gosto, e levarei pena quando daqui sair. Não tenho vivido à laia de chinfrim. Vivo na aristocracia intelectual, e estou relacionado com estas sumidades mais ou menos caricatas."

In Carta de Camilo a Manuel Negrão, In Cabral, António – Camilo desconhecido. Lisboa : Livraria Ferreira, 1918. p. 195.


"Até onde te fazem descer, decrepita universidade!
Como os filhos das tuas entranhas tuberculosas, servos parricidas, te apertam as cordoveias da garganta até deitares cá fora a lingua cheia de injurias e de parvoices! Lá te ias arrastando na tua velhice, amparada no preconceito de cinco seculos que são as tuas molêtas; e vem os teus filhos, e, a encontrões de troça ebria do Bairrada, quebram-t'as, e tu ahi estás estatellada no muladar. E eu, ao perpassar por ti, não voltarei o rosto na repulsão do nojo. Erguer-te-hei; e, pois já agora seria extemporanea tolice conduzir-te á escola, levar-te-hei a um asylo de invalidas. E como o clinico da casa de hade perguntar o nome e os achaques, responde-lhe que és a Minerva portugueza com dysenteria chronica."

Cavallaria da Sebenta, In Cabral, António – Camilo de Perfil. Lisboa ; Paris : Livrarias Aillaud e Bertand, 1922. p. 253.


"Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear as lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez.
Tres épocas me occorreram.
Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e menos alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851.
Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em rhetorica, e eu com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na viola. Não rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca ignorancia um conceito honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem para os invejar nem para os detrahir."

In Noite de Insónia . Lisboa : Livraria Chardron, de Lello & Irmão, 1929. vol. 3, n.º 9, p. 245.


"Em Janeiro de 1846, conheci em Coimbra um rapaz, que estudava humanidades [...] O Penedo da Saudade , nos subúrbios de Coimbra, era a sua distracção de todos os dias. Alguns antes da revolução de Maio de 1846 – encontrei-o aí, só, triste, e extraordinariamente lívido."

Leiam. In Andrade, Carlos Santarém – Coimbra na vida e na obra de Camilo. Coimbra : Coimbra Editora, 1990. p. 15


"Apeei em Coimbra, dei um jeito às costelas deslocadas, e fui em cata de Carlos Pereira, que encontrei na rua de Coruche. Quem se lembra já hoje da rua de Coruche? Há doze anos que passou por ali o Progresso, este iconoclasta implacável que subverte as coisas santas da religião artística de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo: não cabe em ruas estreitas. Aquela, a de Coruche, levou-a ele diante de si; e, como às cavaleiras desse pujante demolidor andem os bons progressistas para darem o seu nome às empresas que ele comete, aquela rua das minhas saudades ficou-se chamando do Visconde da Luz .
Com que prazer eu vi, há dois anos, o senhor doutor Dinis que naquela rua me deu lições de latim! A custo me contive que lhe não dissesse: Ó meu querido professor, eu sou um dos que antigamente desceram das regiões transmontanas naqueles machos que o progresso tirou da circulação para dar praça a outros maiores. Sou um dos anciãos que ainda viram a rua de Coruche, e imaginaram saltar da vossa janela para a da vizinha fronteira."

In A Mulher Fatal . Lisboa : Parceria A. M. Pereira, 1968. p. 111-112.

"Do mosteiro de Santa Clara saiu o cadáver sobraçado por aquele homem que relançava à volta de si o olhar sôfrego da posse da mulher morta. Quando ele, vagarosamente, passava no longo dormitório, ouviu o murmúrio das freiras que rezavam salmos no coro. A desgraça faz prodígios de fé, desvarios de crença que seriam galardoados com milagres, se os actos da omnipotência divina se pautassem pela regra do nosso entendimento. Eduardo, aceso em fé ardente, escutava o soturno rumor das vozes, e orava em espírito com os olhos fitos nos do cadáver ainda mal fechados. O infeliz pedia a ressurreição daquela mulher, dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus lábios alvacentos, como se esperasse sentir-lhe o hálito dos pulmões revividos.
Instaram os oficiais, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o cadáver; mas, não conseguindo desabraçá-lo da morta, ajudaram-no a transportá-la ao quartel de um deles, que se incumbiu do enterro."

In Livro de Consolação . Porto : Lello & Irmão, [19--]. p. 45.

 

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Última atualização: 12/10/2016