EGAS MONIZ NOS SELOS PORTUGUESES: 
O HOMEM, O UNIVERSITÁRIO E O CIENTISTA



João Rui Pita

Por três vezes a figura de Egas Moniz surge nos selos portugueses. Em 1966, o selo de 50 centavos integrado na emissão Cientistas portugueses tem como motivo a figura de Egas Moniz. Em 1974, foi colocada em circulação uma emissão dedicada ao Centenário do Nascimento do Professor Egas Moniz. Em 1983, a emissão Europa-CEPT, constituÍda por um único selo (e bloco com quatro selos) teve como motivo Egas Moniz. Iremos centrar a nossa atenção, unicamente nos selos alusivos a este médico e cientista, deixando de lado outras vertentes filatélicas dignas de registo como, por exemplo, o inteiro postal alusivo aos 120 anos do seu nascimento, de resto, em nosso entender, uma peça de assinalável beleza.
A emissão de 1966, constituÍda por oito selos com taxas distintas e dedicada a cientistas portugueses, mostra-nos o rostos de oito cientistas portugueses que se salientaram em diversos ramos do saber. No selo de 20 centavos surge-nos o bacteriologista Câmara Pestana; o selo de 50 centavos é dedicado, como referimos, a Egas Moniz; os selos de 1$00 e de 1$50 são dedicados, respectivamente, aos botânicos António Pereira Coutinho e José Correia da Serra; 
Ricardo Jorge, médico higienista e escritor, é o protagonista do selo de 2$00; o famoso etnólogo José Leite de Vasconcelos é a figura do selo de 2$50, restando os selos de 2$80 e de 4$30 para dois médicos que se destacaram em dois ramos distintos da medicina, respectivamente Maximiano Lemos (história da medicina) e José António Serrano (anatomia). Não pretendemos tecer considerações sobre toda esta emissão que circulou entre 1 de Dezembro de 1966 e 30 de Março de 1973. Contudo, diga-se que se trata de uma série muito bem concebida do ponto de vista estético, que foca alguns dos cientistas mais representativos da comunidade cientÍfica portuguesa e que apresenta um significativo interesse para diversas coleções temáticas como, por exemplo, história da ciência, história da medicina, história da botânica, polÍtica portuguesa, história de Portugal, prémios Nobel, epidemias, etc.
A emissão Centenário do Nascimento do Professor Egas Moniz, que circulou no nosso paÍs entre 27 de Dezembro de 1974 e 31 de Dezembro de 1983 é constituÍda por três selos diferentes com três taxas distintas: 1$50, 3$30 e 10$00. Trata-se de uma emissão que foca alguns dos marcos da vida cientÍfica do cientista português.

Finalmente, a referida emissão de 1983 é constituÍda por um único selo de 37$50 tendo sido lançado igualmente um bloco constituÍdo por quatro selos. Nesta emissão encontramos representado o rosto de Egas Moniz, tendo como pano de fundo alguns aspectos da sua actividade cientÍfica.
Egas Moniz é um dos nomes mais marcantes da medicina portuguesa e com intervenção na vida polÍtica. Nasceu em Avanca, a 29 de Novembro de 1874, sendo oriundo de uma famÍlia de tradições de nobreza. Tinha como nome completo António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz. Estudou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde se formou em 1899. Em 1902 concorreu para professor da Faculdade onde se havia formado. Em 1911 transferiu-se para a Universidade de Lisboa onde ficou encarregado da regência da cadeira de Neurologia da Faculdade de Medicina, recém instituÍda pela reforma republicana. De resto, em França (em Paris e em Bordéus) já havia contactado de perto com algumas das mais relevantes escolas neurológicas o que foi fundamental para a sua formação cientÍfica. A actividade que desenvolveu em Lisboa, quer como clÍnico, quer como cientista ou universitário, incidiu sobre a neurologia. Em 1927 realizou a primeira angiografia cerebral humana. Em 1935 levou a bom termo a intervenção cirúrgica designada leucotomia pré-frontal que consistia, muito sumariamente, em seccionar as conexões do lobo frontal com a parte restante do cérebro. Esta operação aumentou o conhecimento que havia sobre a anatomia e a fisiologia cerebrais e proporcionou o desenvolvimento da neurocirurgia. A intervenção cirúrgica concebida por Egas Moniz teve aplicação no tratamento de certas psicoses e a breve trecho foi internacionalmente reconhecida e praticada e correspondeu a um empreendimento cientÍfico intensificado, sobretudo, a partir de 1933. Um dos pontos mais elevados do reconhecimento cientÍfico desta descoberta cientÍfica foi a atribuÍdo, em 1949, do Prémio Nobel da Medicina ao cientista português.
Autor de uma variada obra cientÍfica, Egas Moniz foi, também, um interessado por questões literárias e culturais, tendo publicado algumas obras sobre vultos das letras e das artes portuguesas. Ficaram célebres as suas conferências apresentadas Academia das Ciências de Lisboa, de que foi presidente, sobre os temas mais variados da vida cultural portuguesa, como, por exemplo, as que versaram João de Deus, Teixeira de Pascoais, Guerra Junqueiro, José Malhoa, Silva Porto, Abel Salazar, e, ainda, os seus discursos sobre figuras nacionais e estrangeiras da cultura e da ciência como, por exemplo, Lavoisier, Charcot, Roentgen, Ramon y Cajal, etc.
Egas Moniz foi, também, uma figura da polÍtica portuguesa. Desde os tempos de estudante que a sua militância polÍtica foi uma constante, desaguando a sua actividade na adesão República, tendo pertencido primeira Assembleia Constituinte e Primeira Câmara de Deputados. Fundador do efémero Partido Centrista, foi, posteriormente, pela mão de Sidónio Pais, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Embaixador em Madrid e Delegado Conferência de Paz em Versalhes, em 1918. Para Egas Moniz, no dizer de Barahona Fernandes, que o biografou, a sua relação com a polÍtica foi uma "afeição infeliz" mas constituiu "uma forte motivação para a grande mutação criativa da sua existência: a dedicação plena investigação cientÍfica" (B. Fernandes, Egas Moniz, pioneiro de descobrimentos médicos). Egas Moniz foi membro de diversas instituições cientÍficas nacionais e estrangeiras e foi distinguido honorificamente, em Portugal e no estrangeiro, como o exemplifica o facto de ser Comendador da Legião de Honra e de lhe ter sido atribuÍda a Grã-Cruz das Ordens da Instrução Pública.
Nos selos portugueses, Egas Moniz surge-nos, como referimos, por três vezes. Em 1966, Egas Moniz é retratado com um fato civil. Surge como cientista português (neurologista) mas no selo não há qualquer referência, no mesmo plano ou como pano de fundo, sua actividade cientÍfica, sua actividade universitária ou sua militância polÍtica. Porque no pensar neste selo em Egas Moniz polÍtico? Na emissão de 1974 são contemplados alguns dos aspectos da vida cientÍfica e docente de Egas Moniz, o que no será para admirar se pensarmos que a emissão surge a propósito do centenário do nascimento do clÍnico. Assim, no selo de 1$50, de tonalidades amarelas, aparece-nos o Egas Moniz universitário. Na verdade o selo ilustra o professor com as insÍgnias doutorais. O selo de 3$50, em castanho e amarelo, é ilustrado com a referência ao Prémio Nobel da Medicina, que recebeu em 1949, e com a respectiva alusão leucotomia pré-frontal. O selo de 10$00, em tonalidades de cinza e de azul, reporta-se angiografia cerebral.
Finalmente, na emissão de 1983, Egas Moniz é representado, pela primeira vez, na sua condição de clÍnico. Muito sumariamente, em tonalidades de vermelho e de rosa, o selo faz uma alusão angiografia, leucotomia e ao Prémio Nobel que lhe foi atribuÍdo. Todos estes elementos surgem como pano de fundo de um Egas Moniz de bata branca, clÍnico e cientista.
Assim, os selos emitidos pelos C.T.T. alusivos figura de Egas Moniz representam-no nas suas diversas condições de professor, de clÍnico, de cientista e de cidadão. Se para uma temática de vida polÍtica portuguesa o selo de $50 de 1966 pode ilustrar bem Egas Moniz, para uma temática de história da medicina os selos de 3$30 e de 10$00, da emissão de 1974, e o selo de 37$50 da emissão de 1983 são fundamentais. O selo de 1$50 da emissão de 1974 assume interesse numa dupla vertente: por um lado, para a história da medicina, por ilustrar a figura de Egas Moniz; por outro lado, para uma temática de história da Universidade ou do ensino por ilustrar um professor da Universidade de Coimbra e de Lisboa. 

in Cábula Filatélica nº 14


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Última atualização: 04/11/2013